Um novo estudo divulgado ontem (16.jul.2024) pela ONG Autism Science Foundation (ASF) revela que a taxa de recorrência do transtorno do espectro do autismo (TEA) em crianças que têm um irmão mais velho autista subiu para 20,2%. Esse número é significativamente maior que a taxa da população geral, que é de 2,8% (segundo números do CDC dos EUA, divulgados em 2023). A pesquisa, publicada na revista Pediatrics, utilizou uma amostra mais ampla e diversificada do que um estudo similar realizado em 2011, que reportava uma taxa de 18,7%. Dados foram coletados de 18 locais diferentes pelo Consórcio de Pesquisa de Bebês Irmãos do Autismo, acompanhando 1605 bebês com irmãos mais velhos autistas desde o nascimento até os 3 anos de idade.

O estudo identificou que o sexo do bebê, o número de irmãos autistas na família e o sexo do irmão mais velho (probando) são fatores determinantes na taxa de recorrência. Bebês do sexo masculino apresentaram uma taxa de recorrência de 25%, enquanto bebês do sexo feminino apresentaram 13%. Além disso, a taxa de recorrência aumenta significativamente em famílias com mais de um irmão autista, chegando a 37%. Se o primeiro filho autista for do sexo feminino, a taxa de recorrência é de 34,7%, comparada a 22,5% quando o primeiro filho autista é do sexo masculino.

Variáveis associadas com a recorrência e as taxas de recorrência:

Sexo do bebê

  • Taxa de recorrência em meninos = 25%
  • Taxa de recorrência em meninas = 13%

Número de crianças autistas na família

  • Taxa de recorrência se houver mais de um irmão autista = 37%
  • Taxa de recorrência se houver apenas um irmão autista = 21%

Sexo do probando (ou seja, sexo do irmão autista mais velho)

  • Taxa de recorrência se o primeiro filho autista for do sexo feminino = 34,7%
  • Taxa de recorrência se o primeiro filho autista for do sexo masculino = 22,5%

Raça

  • Taxa de recorrência em não brancos = 25%
  • Taxa de recorrência em brancos = 18%

Educação materna

  • Taxa de recorrência se a mãe tem ensino médio ou menos = 32%
  • Taxa de recorrência se a mãe tem diploma de pós-graduação = 17%

Menos educação, mais recorrência

Contextos socioeconômicos também desempenham um papel crucial na taxa de recorrência do autismo. Crianças cujas mães possuem apenas o ensino médio ou menos apresentam uma taxa de recorrência de 32%, enquanto aquelas cujas mães têm um diploma de pós-graduação têm uma taxa de 17%. Esses dados sugerem que a monitorização de bebês em risco deve considerar tanto fatores genéticos quanto contextuais, com atenção especial para famílias economicamente desfavorecidas.

A Autism Science Foundation, uma das financiadoras do estudo, enfatiza a importância de uma vigilância contínua e intervenção precoce para irmãos mais novos de crianças autistas. A Dra. Alycia Halladay, diretora científica da fundação, destacou a necessidade de garantir que essas crianças sejam monitoradas de perto e encaminhadas para avaliação diagnóstica rapidamente se sinais precoces de autismo surgirem. “É crucial que os irmãos mais novos, especialmente aqueles do sexo masculino ou com múltiplos irmãos autistas, sejam acompanhados de perto durante o desenvolvimento inicial”, afirmou Halladay, que atua como responsável pelo programa do consórcio Autism Baby Siblings Research Consortium (BSRC). A coleta e análise deste grande conjunto de dados foi possível graças a um banco de dados compartilhado do BSRC, financiado pela ASF.

O BSRC é uma comunidade multidisciplinar de pesquisadores e clínicos dedicada a entender as origens e os primeiros sinais de TEA. Nos últimos dez anos, o consórcio tem identificado marcadores comportamentais e biológicos de risco antes da idade típica de diagnóstico, promovendo intervenções precoces na infância. Para mais detalhes sobre o artigo que explica o estudo e a respeito do trabalho do consórcio, visite o site da Autism Science Foundation, neste link.

O estudo original está no PubMed, em pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39011552/, e na revista Pediatrics (neste link).

A hidratação é fundamental para manter a saúde em dia e garantir o funcionamento do corpo. 

A ingestão de água é essencial para manter um bom funcionamento do organismo e saúde do nosso corpo, sendo responsável pela prevenção de cálculos renais, liberação de toxinas através do suor e urina, controle de temperatura do corpo e hidratação da pele e cabelos. 

Para alguns autistas e cuidadores manter a ingestão adequada de água pode ser desafiador devido a questões sensoriais, como não aceitar água em determinada temperatura, ou não aceitar nenhum tipo de chá ou polpa. Pode ser ainda relacionado a dificuldades relacionadas ao comportamento restrito e repetitivo, como não aceitar beber água sem determinado copo ou objeto de conforto. 

Além disso, a ingesta hídrica em quantidades adequadas evita a constipação e facilita a digestão dos alimentos.

Manter o consumo regular de líquidos pode parecer simples, mas é muito comum que na correria do dia a dia as pessoas se esqueçam de beber água, principalmente em dias frios. Uma boa forma de lidar com o problema do esquecimento é mantendo uma garrafinha de água fresca por perto. No caso de crianças, além da água, pode-se ofertar utilizando a garrafinha, chás e sucos (preferencialmente sem açúcar), o que também auxilia na hidratação.

Tismoo.me

Dicas para estimular autistas a beber mais água:

  • Tenha uma garrafa com água fresca sempre por perto;
  • Baixe aplicativos que lembrem de beber água, como o Hydrillo, Aqualert e Lembrete de água;
  • Experimente consumir água saborizada para facilitar o consumo;
  • Utilize uma garrafa com indicadores motivacionais de quantidade, dessa forma você será capaz de medir a quantidade de água ingerida durante o dia;
  • Utilize uma garrafa ou copo que tenha um desenho, formato ou estampa com algum hiperfoco da pessoa;
  • Não espere ficar com sede para beber água (a sede pode já ser um sinal de desidratação);
  • Coma frutas ricas em água como melancia, melão ou laranja.

Sintomas da desidratação

Fique atento a alguns dos sintomas da desidratação! Caso note um ou mais sintomas descritos abaixo, leve a pessoa para o atendimento médico hospitalar:

  • redução na quantidade de urina diária;
  • secura dos lábios e da pele;
  • aparecimento de olheiras;
  • sensação de sede excessiva;
  • perda de peso;
  • dores de cabeça;
  • fadiga;
  • tontura.

Referências

A alimentação de pessoas autistas pode ser um assunto delicado para os pais e cuidadores, acompanhe nossa matéria sobre o assunto!

A alimentação pode ser um desafio para os autistas e seus cuidadores, devido às dificuldades em manter uma alimentação saudável, o que aumenta o risco de deficiências nutricionais. 

As questões ligadas aos distúrbios alimentares se apresentam em cerca de 51% a 89% das crianças com TEA. Alguns dos problemas apresentados são:

  • seletividade alimentar; 
  • postura de inquietude e ansiedade durante as refeições;
  • repertório alimentar limitado; 
  • ingestão restrita ou exagerada;
  • dificuldade em permanecer à mesa durante as refeições. ¹

As barreiras alimentares são extremamente comuns dentro do espectro, sendo a seletividade a mais relatada pelos pais. As dificuldades em aceitar novos alimentos pode estar ligada a questões sensoriais e a necessidade de manter rotinas, padrões ritualizados e repetitivos. 

Seletividade Alimentar

Trata-se da recusa frequente de alimentos novos pelo repertório limitado de alimentos aceitos, a seletividade é considerada algo comum na infância. Porém, quando trata-se do TEA, falamos de um desafio para o autista e o motivo de preocupações para seus cuidadores. Isso ocorre devido às complicações atreladas à alimentação extremamente restrita, como atraso no desenvolvimento, problemas ósseos, anemia, desnutrição, baixo peso e obesidade. Além do risco aumentado para o desenvolvimento de hipertensão e diabetes. 

A recusa em alimentos pode nem sempre estar relacionada ao gosto do mesmo, mas sim a textura, cores, cheiros, temperos e a forma como a comida é apresentada.

Dicas:

Uma das formas de conseguir aumentar o repertório alimentar da pessoa, é oferecendo os alimentos de diferentes formas, assim como tentando identificar o motivo por trás da recusa. Às vezes a pessoa pode não aceitar bem alimentos moles como purê de batatas, por exemplo, então uma alternativa seriam batatas cozidas ao dente ou assadas no forno.

Além das dificuldades sensoriais, outros fatores podem influenciar como, habilidades motoras orais que resultam em um maior esforço para mastigação, problemas gastrointestinais e comportamentais, e a necessidade de manter uma rotina e rituais. 

As barreiras podem ser superadas independentemente da idade da pessoa autista, é importante lembrar que o processo de introdução a novos alimentos é feito com calma e pode ser apoiado por terapias que a pessoa faça em seu cotidiano, como a Terapia Ocupacional e a Fonoaudiologia, por exemplo.  

Referências

TISMOO. A seletividade alimentar e o autismo. Disponível em:   A seletividade alimentar e o autismo – Tismoo Acesso em 21 de Junho de 2024

SCIELO. Comportamento alimentar de crianças com transtorno do espectro autista. Disponível em:  ¹ SciELO – Brasil – Comportamento alimentar de crianças com transtorno do espectro autista Comportamento alimentar de crianças com transtorno do espectro autista Acesso em 21 de Junho de 2024

Com a chegada do clima frio vem a necessidade de maiores cuidados em relação a prevenção de gripes, resfriados e alergias respiratórias principalmente para pessoas autistas. Baixas temperaturas e o clima mais seco podem provocar lesões na mucosa nasal, facilitando a entrada de vírus pelas vias respiratórias e a sua proliferação.

A maior ocorrência de gripe nos meses frios também está relacionada às aglomerações em locais fechados e mal ventilados. Esses espaços concentram cargas virais, facilitando a disseminação das doenças respiratórias, além de serem possíveis locais de depósito de poeira e ácaro, o que também pode desencadear alergias, ainda mais do ponto de vista das pessoas com TEA, que naturalmente já apresentam uma predisposição maior à despertar alergias respiratórias.

Como o organismo precisa manter a temperatura corporal em 37,5ºC para o bom funcionamento dos sistemas, a sensação de frio estimula diversas reações no corpo. Uma dessas reações é a contração dos vasos sanguíneos da mucosa nasal, o que gera a diminuição da secreção de fluidos que contêm diversos mediadores antivirais. Isso deixa o organismo mais suscetível à contaminação. 

Hipossensibilidade

Ademais, pessoas autistas também podem apresentar hipossensibilidade em relação a sintomas gripais como febre, dor de cabeça e dor no corpo, e ao não conseguir identificar e relatar adequadamente esse sintomas, o diagnóstico pode ser realizado mais tardiamente, o que agrava o quadro. Sendo assim, a atenção em relação à possíveis alterações comportamentais da pessoa autista nesta época do ano deve ser redobrada, sempre em busca de possíveis sinais de adoecimento.

Seguindo essa linha, aqui estão algumas dicas para evitar esses quadros tão inconvenientes para todo espectro:

  • Evite exposição aos alérgenos e gatilhos conhecidos. Exemplos: baixas temperaturas por tempo prolongado, ácaros, poeira, pelos de animais, produtos com cheiro forte etc.;
  • Evite aglomerações em ambientes fechados! Além de evitar o desconforto do autista por sobrecarga sensorial, também previne contra a disseminação de doenças respiratórias;
  • Cuidado com a higiene do seu ambiente! Mantenha a casa limpa, arejada e livre de poeira. Evite: tapetes, carpetes, cortinas de pano e materiais de pelúcia;
  • Deixe a luz entrar! Abra as janelas e coloque roupas de cama, vestimentas e outras peças de tecido no Sol para eliminar os ácaros;
  • Use soro fisiológico para lavar o nariz com frequência;
  • Se estiver doente, lembre-se de usar máscaras para evitar a transmissão, mas caso a pessoa autista não se sinta confortável com o uso de máscara, trabalhe essa questão de aceitação aos poucos com a terapia ocupacional;
  • Beba água! A ingesta hídrica auxilia na fluidificação de secreções para eliminá-las;
  • Certifique-se de seguir o calendário vacinal e tomar as vacinas antialérgicas e de influenza para melhorar a imunidade.

Alerta!

Atenção: Em caso de sintomas agravados ou febre alta persistente (maior que 39°C) procure ajuda médica e nunca se automedique.

Junho é mês de comemoração e festa junina, um evento cheio de música, dança, comidas típicas e para os autistas, uma festa de estímulos. Separamos esse momento para falar sobre como tornar esta data mais leve para os autistas. Afinal, todos nós merecemos a alegria de festejar e a paz de estar bem consigo mesmo. 

Assim como outras festas e eventos comemorativos o ambiente irá estar repleto de pessoas, música e estímulos vindos de sons, cores e a própria vivência de estar lá, para isso, é importante se planejar para o evento e deixar a pessoa preparada para o dia. Sendo assim, é interessante mostrar vídeos de como será a festa, colocar a música típica para tocar alguns dias antes para se acostumar com alguns sons. No caso de precisar vestir alguma fantasia, deixe que a pessoa experimente a roupa antes e use ao longo do dia para que ela possa se acostumar com as texturas e para que você consiga identificar eventuais gatilhos para crises. 

Preparar e planejar não eliminam as chances de haver a sobrecarga sensorial (uma das causas da crise no TEA) mas ajudam a tornar a experiência previsível para o autista, ajudando com a adaptação social, não apenas nesse evento como também aos próximos.

Crises e frustrações:

É comum se frustrar quando não se ganha o brinquedo na brincadeira, ou mesmo não consegue brincar, explique com antecedência como a brincadeira funciona e que não existe problema em perder ou não conseguir o brinquedo que deseja. Tenha em mãos um objeto ou brinquedo de conforto para ajudar a contornar a frustração e se necessário, se afaste do local da brincadeira para tentar mudar o foco da atenção da criança. Ir a outro local com menos pessoas, música e estímulos (como uma sala de descanso) pode ajudar muito. 

Hipersensibilidade auditiva: 

Músicas altas e fogos de artifício podem incomodar e serem gatilhos para crises. Procure permanecer em locais mais afastados das caixas de som e evite o horário de queima de fogos. Outra possibilidade é optar por protetores auriculares e abafadores, caso a criança esteja acostumada (teste previamente).

Clima frio e o choque térmico: 

Cuidado com a fogueira! O clima frio pode contribuir para o desenvolvimento de gripes e resfriados, assim como ficar muito perto do fogo para se esquentar e posteriormente se expor ao vento gelado, pode agravar esses quadros devido ao choque térmico. Saia de casa bem agasalhado, assim não precisará da fogueira para se aquecer! 

Seletividade alimentar: 

Poder saborear as comidas típicas é bom demais, mas sabemos como pode ser difícil inovar no paladar de pessoas com TEA. Apresente as comidas, deixe que a criança as veja e participe na escolha dos alimentos. O interesse por algo novo pode surgir após a exposição visual e tátil. Contudo, tenha sempre uma alternativa de um alimento aceito pela pessoa autista, no caso dela não aceitar nenhum dos disponíveis nas festividades, e cuidado com o excesso de doces e sódio. 

Aglomerações: 

Ambientes festivos têm uma concentração maior de pessoas, por isso fique atento aos espaços mais tranquilos! Opte por um local um pouco mais afastado das aglomerações, que seja mais calmo e seguro, ou saia do ambiente por alguns momentos para outro com menos estímulos sensoriais, tornando a experiência mais prazerosa e menos estressante para a pessoa com TEA. 

 

 

Numa reportagem nesta sexta-feira, 07.jun.2024, a revista Exame destacou a health tech Tismoo.me, com sua inteligência artificial (IA) e um serviço de saúde de Gestão de Saúde Populacional (GSP) especializados em autismo, atualmente vendido a médias e grandes empresas, operadoras de saúde e clínicas de autismo.

O texto de Miguel Fernandes enfatiza enfatiza que “o modelo de negócios da Tismoo.me é vender seu serviço de gestão de saúde populacional para empresas, que é oferecido como benefício a seus funcionários neurodivergentes ou com familiares nessa condição. Para as corporações, o valor agregado vai muito além da economia nos custos de saúde. Ao promover a diversidade e inclusão, elas atraem e retêm talentos, fortalecem sua marca empregadora e demonstram responsabilidade social”, escreveu Fernandes, que é chief artificial intelligence officer da Exame.

A reportagem cita a trajetória do cofundador e CEO da Tismoo.me, Francisco Paiva Jr., incluindo a criação da Revista Autismo até chegar na health tech e na IA especializada em autismo recentemente lançada para o público, o Genioo, além do serviço de saúde inovador que a startup criou.

Inteligência artificial e autismo

A IA está revolucionando a vida de pessoas autistas, com tecnologias inovadoras que oferecem suporte personalizado e autonomia. Ferramentas baseadas em IA, como aplicativos de comunicação aumentativa, ajudam na interação social, enquanto sistemas de monitoramento avançados auxiliam na gestão de comportamentos e rotinas. Segundo especialistas, essas tecnologias promovem maior independência e qualidade de vida para pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA).

Pesquisas recentes destacam que a IA pode identificar padrões comportamentais e prever crises, permitindo intervenções antecipadas e personalizadas. Isso representa um avanço significativo em comparação com métodos tradicionais, oferecendo um suporte mais eficiente e adaptado às necessidades individuais.

Para as informações completas, acesse a reportagem da revista Exame, na íntegra, neste link.

 

CONTEÚDO EXTRA

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego) sugere que um cérebro anormalmente grande pode ser o primeiro sinal de autismo profundo (ou nível 3), visível já no primeiro trimestre de gestação. Publicada na revista *Molecular Autism*, a pesquisa utilizou células-tronco de crianças com autismo idiopático para criar organoides corticais cerebrais (BCOs, na sigla em inglês para brain cortical organoids — também conhecidos como “minicérebros”), que são modelos do córtex fetal. Os BCOs de crianças autistas eram significativamente maiores que os de crianças neurotípicas, com um aumento de cerca de 40%. Quanto maior o “minicérebro”, mais graves eram os sintomas sociais e de linguagem dessas crianças, segundo os resultados do estudo.

A pesquisa, liderada pelos professores Alysson Muotri e Eric Courchesne, revelou que o crescimento anormal dos BCOs em crianças com autismo está correlacionado com a severidade da apresentação da condição autista. Crianças cujos respectivos “minicérebros” excessivamente aumentados mostraram volumes cerebrais maiores em áreas relacionadas à socialização, linguagem e funções sensoriais quando comparadas aos seus pares neurotípicos. “O ditado ‘quanto maior o cérebro, melhor’ nem sempre é verdadeiro,” afirmou Alysson Muotri, diretor do Instituto de Células-Tronco da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA). “Nos organoides cerebrais de crianças com autismo severo, há mais células proliferando e, consequentemente, mais neurônios — e isso nem sempre é positivo.”

Formação acelerada de neurônios

O estudo descobriu que os BCOs de todas as crianças com autismo, independentemente da severidade, cresciam aproximadamente três vezes mais rápido do que os de crianças neurotípicas. Algumas das maiores organoides cerebrais, provenientes de crianças com casos mais graves e persistentes de autismo, também apresentaram uma formação acelerada de neurônios. Essa descoberta sugere que a gravidade do autismo pode estar diretamente ligada à taxa de crescimento e número de neurônios no cérebro.

Eric Courchesne, coautor do estudo, destacou a importância desse tipo de pesquisa. “Os sintomas centrais do autismo são problemas sociais e de comunicação. Precisamos entender as causas neurobiológicas subjacentes a esses desafios e quando eles começam. Somos os primeiros a projetar um estudo de células-tronco para abordar essa questão específica e central do autismo,” disse Courchesne, que também é codiretor do Centro de Excelência em Autismo da UC San Diego.

A descoberta de que o crescimento excessivo do cérebro começa ainda no útero pode abrir caminho para novas terapias destinadas a melhorar as funções intelectuais e sociais das pessoas com autismo. Os pesquisadores agora esperam identificar a causa desse crescimento acelerado para desenvolver tratamentos que possam ajudar na função social e intelectual dos afetados.

Para mais detalhes sobre esta pesquisa pioneira, a reportagem completa pode ser acessada no site Medical Express e também no UC San Diego Today. O estudo completo pode ser acessado neste link.

 

CONTEÚDO EXTRA

O neurocientista brasileiro Alysson Muotri está à frente de mais um projeto revolucionário que visa explorar a biodiversidade da Amazônia em busca de tratamentos eficazes para doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e outras condições neurológicas, incluindo o autismo. Em colaboração com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a pesquisa de Muotri utiliza minicérebros — organoides cerebrais que replicam a estrutura do cérebro humano — que serão enviados à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) para estudos em condições de microgravidade. A iniciativa promete avançar significativamente o entendimento de doenças neurológicas através do estudo de moléculas oriundas da biodiversidade de plantas amazônicas com potencial terapêutico e foi destaque no G1 neste domingo (5).

Além da exploração científica, o projeto incorpora uma integração tecnológica notável, onde robôs equipados com inteligência artificial são usados para identificar e coletar espécies vegetais na vasta floresta Amazônica. Este aspecto do projeto não só aumenta a eficiência na coleta de dados, mas também ajuda a preservar o conhecimento indígena sobre as propriedades curativas das plantas, colaborando com os líderes Huni Kuin no Acre. Segundo a reportagem do jornalista Roberto Peixoto, a pesquisa do brasileiro planeja começar os experimentos espaciais em meados de 2025, e os resultados poderiam oferecer novos caminhos para o desenvolvimento de tratamentos mais eficientes e menos invasivos para pacientes ao redor do mundo.

O projeto esta sendo financiado pela iniciativa Humans in Space, do grupo de investimentos sul coreano Boryung, e pelo Centro Integrado de Pesquisa Espacial de Células-Tronco em Órbita (sigla em inglês, ISSCOR) localizado na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), na qual Muotri é diretor.

‘Máquina do tempo’

O aspecto inovador do estudo não reside apenas no uso de tecnologias de ponta e na colaboração intercultural, mas também na rapidez com que os organoides cerebrais envelhecem no espaço, proporcionando uma oportunidade única para estudar as doenças em um curto espaço de tempo. Esse envelhecimento acelerado permite aos cientistas observar os efeitos potenciais de neurodegeneração e testar a eficácia de moléculas isoladas antes de serem aplicadas em contextos terapêuticos na Terra — “É quase uma máquina do tempo!”, brinca o Dr. Muotri a respeito desse efeito da microgravidade. Ainda, a sustentabilidade do projeto é destacada pela intenção de Alysson Muotri de destinar uma parte dos eventuais lucros obtidos com futuras descobertas terapêuticas aos povos indígenas, reconhecendo sua contribuição vital para o sucesso da pesquisa.

Este projeto não apenas eleva o papel do Brasil no cenário científico internacional, mas também exemplifica uma abordagem holística e responsável para com a ciência moderna, integrando respeito pela natureza e pelas culturas indígenas com inovações tecnológicas e médicas. É um esforço colaborativo que espelha a complexidade dos desafios que enfrentamos e o potencial das soluções inovadoras que podemos alcançar.

Autismo e neurodesenvolvimento

Vale destacar que o Dr. Alysson Renato Muotri, que é professor da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA) e lidera o Muotri Lab naquela mesma universidade, também é cofundador da Tismoo Biotech e da Tismoo.me, startups brasileiras que atuam com autismo e neurodesenvolvimento — esta última lançou uma inteligência artificial especialista em autismo, chamada Genioo, no último dia 02.abr.2024, que atualmente pode ser utilizada sem custo. Ele foi convidado pela Nasa (a agência espacial dos EUA) para ir pessoalmente à ISS no ano que vem para conduzir pesquisas relacionadas a neurodesenvolvimento, o que o tornaria o primeiro cientista do mundo a ir ao espaço!

Para mais detalhes sobre esta pesquisa pioneira e seus desenvolvimentos futuros, a matéria completa, do jornalista Roberto Peixoto, ilustrações de Ana Moscatelli, com edição de Ardilhes Moreira — contendo diversas animações, ilustrações e infográficos —, pode ser acessada no site do G1, neste link.

 

CONTEÚDO EXTRA

 

(Publicado originalmente no Canal Autismo / Revista Autismo)

Startup brasileira criou chat conversacional gratuito para tirar dúvidas sobre autismo e neurodesenvolvimento com informações seguras

Nesta terça, 2.abr.2024, quando o mundo todo celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, a startup Tismoo.me lançou o “Genioo”, a primeira inteligência artificial (IA) especializada em autismo e neurodesenvolvimento. Acessando app.tismoo.me/genioo ou no aplicativo Tismoo.me (para iOS e Android), qualquer pessoa pode conversar gratuitamente com o Genioo, no estilo ChatGPT, para tirar suas dúvidas. A iniciativa leva acesso a informação de qualidade sobre autismo e outras neurodivergências a todos — e não só em português, mas em diversos idiomas, incluindo inglês e espanhol.

A inteligência artificial da Tismoo.me foi treinada com informações acuradas e precisas a respeito do transtorno do espectro do autismo (TEA), síndromes relacionadas ao espectro e outras condições do neurodesenvolvimento e neurodivergências, incluindo estudos científicos e publicações da Revista Autismo (maior publicação do mundo sobre o tema em língua portuguesa), além de dados genéticos e estudos do Muotri Lab, da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), liderado pelo neurocientista brasileiro, Dr. Alysson Muotri, que é um dos sócios cofundadores da Tismoo.me. “A grande inovação do Genioo não é somente o uso cuidadoso e responsável de uma inteligência artificial na área da saúde, o que é uma tendência para os próximos anos, mas poder dar acesso a informações a respeito de TEA para quem hoje não tem o suporte necessário ou uma rede de apoio”, argumentou Muotri, que tem parceria com a NASA para fazer pesquisas sobre autismo na Estação Espacial Internacional, produção científica essa também utilizada para “abastecer” os algoritmos e a IA da Tismoo.me.

Reconhecendo padrões comportamentais 

Para o CEO da startup, Francisco Paiva Jr., “a tecnologia  Genioo vem para democratizar a informação a respeito de autismo para todos com acesso à internet”. Paiva ainda continua: “Além de uma base de conhecimento especializada e científica, o que traz mais segurança às informações da nossa inteligência artificial generativa, isso você não encontra hoje num ChatGPT, por exemplo. Também estamos treinando o Genioo para reconhecer padrões comportamentais como, por exemplo, a ideação suicida durante a conversa, um dos grandes problemas de saúde pública que tem uma prevalência muito maior em autistas que na população em geral – estudos apontam para uma incidência de 8 vezes mais suicídios em  autistas que em pessoas neurotípicas”, revelou Paiva Junior, que também é um dos cofundadores da Tismoo.me.

Para ter acesso à tecnologia Genioo, que está em sua primeira versão beta, basta baixar o app Tismoo.me na loja de aplicativos da Apple (para iPhone) ou do Google (para Android) ou via web, acessando app.tismoo.me para bater papo com o robô especialista — vale destacar que é preciso cadastrar-se na plataforma para criar um usuário e ter acesso completo à inteligência artificial.

“Um caso bem interessante na fase de testes da nossa IA, foram autistas adultos que usaram o Genioo para reescrever o que eles queriam responder para e-mails e mensagens de whatsapp no trabalho, pois sempre recebem críticas por responderem de forma que soa rude ou mal-educada, por serem diretos demais e, muitas vezes, com excesso de sinceridade. Achei esse uso muito criativo e mostra o quão ilimitadas podem ser as possibilidades de crescimento da tecnologia Genioo”, contou Francisco Paiva Jr.

1º GSP para autismo

Além da inteligência artificial conversacional lançada, a health tech Tismoo.me — uma startup de saúde e tecnologia, criada em 2017 — tem o primeiro serviço de Gestão de Saúde Populacional (GSP) para autistas da América Latina, um serviço que faz o monitoramento da saúde de autistas e outras neurodivergências, com acolhimento, predição e prevenção de doenças comuns, assim como o uso mais inteligente do sistema de saúde, seja público, privado ou suplementar, com redução de custos e mais qualidade de vida para autistas e suas famílias. Para isso, a startup se utiliza de atendimento remoto humanizado somado a tecnologias como IA (já usando o Genioo internamente há mais de um ano), deep learning e análise de dados. O serviço, chamado “Saúde no Espectro”, é comercializado somente para empresas, clínicas e operadoras de saúde por enquanto, mas a startup tem planos de ter uma versão para venda direta ao consumidor no ano que vem.

Nas próximas versões do aplicativo, segundo Francisco Paiva Jr., haverá uma versão desse serviço de saúde em formato digital (o “GSDigi”) para dar sugestões e orientações personalizadas a autistas e suas famílias, sempre buscando promover mais saúde, qualidade de vida e bem-estar a todo o espectro do autismo, síndromes relacionadas e outras condições do neurodesenvolvimento.

Há mais informações no site www.tismoo.me.

Autistas e famílias agora podem contar com 1ª inteligência artificial especializada em autismo — Canal Autismo / Revista Autismo

Tela inicial do Genioo, dentro da plataforma Tismoo.me.

 

 

(Publicado originalmente no Canal Autismo)

Um único gene pode significar a diferença entre ter uma personalidade de “arroz de festa” e enfrentar dificuldades sociais, sugere uma nova pesquisa. O achado pode conduzir ao desenvolvimento de um tratamento para as dificuldades sociais do autismo. Indivíduos com a síndrome de Williams (outra condição de saúde do neurodesenvolvimento) têm uma personalidade gregária, amigável, típica das interações em festas, por outro lado, aqueles com a alteração genética oposta tendem a apresentar traços autísticos e são propensos a enfrentar dificuldades sociais.

Graças a novas descobertas realizadas por pesquisadores do Instituto de Células-Tronco Sanford e da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos EUA, os cientistas agora têm uma melhor compreensão do porquê dessa diferença. A pesquisa, publicada hoje na revista científica Cell Reports, pode ajudar a explicar as variações na personalidade humana e até mesmo levar ao desenvolvimento de um tratamento que facilite para alguns indivíduos com autismo funcionarem melhor em sociedade.

“Essas descobertas de vias moleculares que controlam a socialização humana, podem ser exploradas com medicamentos para o tratamento dos autistas que precisam melhorar a parte cognitiva social”, disse o autor principal do estudo, Dr. Alysson Muotri, em entrevista exclusiva ao Portal da Tismoo e à Revista Autismo.

Síndrome de Williams

Frequentemente referida como “o oposto do autismo”, a síndrome de Williams é uma condição genética rara causada pela deleção de cerca de 25 genes na região cromossômica 7q11.23. Essa alteração produz uma série de sintomas, como doenças cardíacas e atraso no desenvolvimento. Ela se caracteriza por uma personalidade extremamente envolvente com alta sociabilidade, loquacidade e um vocabulário que mascara um QI tipicamente abaixo da média.

No entanto, as habilidades sociais da síndrome de Williams são uma espada de dois gumes. Indivíduos com essa condição paradoxal envolvem-se facilmente com estranhos, tornando-os particularmente vulneráveis a abusos e bullying.

Em vez de uma deleção de genes na região cromossômica 7q11.23, o DNA de algumas pessoas apresenta uma duplicação, resultando em comportamentos que são, por vezes, bastante opostos àqueles exibidos por indivíduos com a síndrome de Williams. Aqueles com essa rara alteração genética oposta — conhecida como síndrome de duplicação 7q11.23 — normalmente experimentam sintomas, incluindo autismo, fobia social e mutismo seletivo.

Gene GTF2I

Embora a região genética mais ampla subjacente à síndrome de Williams tenha sido previamente estudada, cientistas da UCSD hipotetizaram que um gene em particular, o GTF2I, é predominantemente responsável pela variação social vista nessa condição de saúde. “Gosto de descrever este gene como o gene do preconceito”, disse o Dr. Alysson Muotri, diretor do Centro de Pesquisa Orbital de Células-Tronco Integradas ao Espaço da UC San Diego e cofundador das startups Tismoo Biotech e da healthtech Tismoo.me.

Para aprender mais sobre seu papel, os pesquisadores utilizaram células-tronco pluripotentes humanas para criar “minicérebros”, que imitam o cérebro humano durante o desenvolvimento fetal, sem o gene GFT2I. Com 2 meses de idade, esses organoides cerebrais eram menores que aqueles com GTF2I. De fato, a perda do gene resultou em aumento da morte celular, diminuição da atividade elétrica e defeitos nas sinapses, as conexões eletroquímicas que permitem que os neurônios se comuniquem entre si.

Os pesquisadores ainda não entendem completamente por que a alteração do gene GTF2I afeta o cérebro dessa forma. A equipe hipotetiza que o aumento da morte celular reduz o número de células no cérebro e, portanto, sua atividade elétrica. Também é possível que o gene ajude a reparar sinapses, o que significa que aqueles sem ele têm um número maior dessas que permanecem sem reparo.

Socialização

Centenas de genes têm sido associados ao autismo, mas o GTF2I “é o único gene do qual temos conhecimento que regula a socialização de forma mais direta”, disse Muotri. A nova pesquisa sugere que, quando se trata de sociabilidade, esse gene é o principal ator no desenvolvimento cerebral fetal. De fato, indivíduos sem as síndromes de Williams ou duplicação 7q11.23 — ou seja, a maioria de nós — têm uma dosagem genética equilibrada de GTF2I e não são nem hiper nem hipossociais.

As descobertas do novo estudo estão alinhadas com trabalhos anteriores que demonstraram hipersociabilidade em animais que não possuem o GTF2I. Por exemplo, moscas da fruta que não têm esse gene, preferem comer juntas, sem a usual “bolha social” obrigatória, e camundongos que tiveram o gene deletado são mais amigáveis que a maioria. Além disso, incrivelmente, alterações em um outro gene, que controla a função do GTF2I — potencialmente desligando-o —, podem ser pelo menos parcialmente responsáveis pela disposição amorosa e amigável de cães domésticos comparados a lobos selvagens.

GTF2I — Estudo descobre o 'gene da socialização' (GTF2I) e pode levar a tratamento para dificuldades sociais de autistas — Portal da Tismoo

Medicamento

Graças às descobertas da equipe de Muotri, a esperança pode estar no horizonte para aqueles com autismo ligado ao GFT2I. A pesquisa abriu caminho para o desenvolvimento potencial de um medicamento que regula a expressão desse gene, facilitando a interação social para indivíduos afetados. Esse tratamento também pode ajudar aqueles que têm um gene GFT2I normal que foi “desligado” pelo epigenoma (reguladores bioquímicos que modificam como nossos genes são expressos durante o desenvolvimento e ao longo da vida).

O trabalho da equipe também lança luz sobre a evolução da socialidade humana, argumenta Muotri. Chimpanzés — o parente evolutivo mais próximo dos humanos — são sociais, mas apenas até certo ponto, preferindo lidar com apenas alguns outros chimpanzés de cada vez. Humanos, por outro lado, “criam grandes comunidades nas quais confiamos uns nos outros sem realmente nos conhecermos”, disse ele. Caso em questão: “Quando você entra em um avião, você não pede para ver a licença do piloto”, exemplificou o Dr. Alysson Muotri.

GFT2I é “provavelmente um dos genes que ajudam os humanos a alcançar esse equilíbrio seguro, em que confiamos na comunidade, mas às vezes não confiamos uns nos outros no mesmo grau”, disse ele, que ainda acrescentou: “Há um ajuste fino da socialização em humanos que você não vê em outras espécies”.

O resultado é a capacidade de colaborar efetivamente. E tal colaboração, Muotri afirma, tem sido chave para as maiores conquistas da humanidade: “É quando cooperamos que podemos colocar um homem na lua. É quando cooperamos que podemos decodificar o genoma humano. Porque trabalhamos juntos”, finalizou Dr. Muotri, que foi convidado pela Nasa para ser o primeiro cientista do mundo a ir pessoalmente à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês para International Space Station) conduzir pesquisas sobre autismo, cérebro e neurodesenvolvimento em microgravidade em 2024 ou 2025.

O estudo, que pode ser lido neste link, contou ainda com os seguintes coautores: Jason W. Adams, Annabelle Vinokur, Janaína S. de Souza, Charles Austria, Bruno S. Guerra, Roberto H. Herai e Karl J. Wahlin.

 

CONTEÚDO EXTRA